Resumo dos impactos
- DXCO3 recua R$ 0,22, de R$ 5,89 para R$ 5,67, em sessão de pressão sobre papéis cíclicos.
- Lucro líquido da Dexco despencou 64% em 2025, para R$ 63 milhões, em receita de R$ 8,25 bilhões.
- Goldman Sachs rebaixou a ação de compra para neutro; preço-alvo cortado de R$ 7,90 para R$ 6,00.
- Dívida líquida de R$ 5,51 bilhões gera despesas financeiras equivalentes a 50%–60% do EBITDA anual.
- Abramat aponta retração acumulada de 3,3% nas vendas do setor nos 12 meses encerrados em março de 2026.
A Dexco figurou entre as maiores baixas da bolsa após a publicação do balanço de 2025 , e a pressão sobre o papel não arrefeceu. Na sessão desta segunda-feira, 20 de abril, DXCO3 cedeu 3,74%, fechando a R$ 5,67 — movimento sustentado por três vetores simultâneos: deterioração dos fundamentos operacionais, estrutura de capital pesada e revisão negativa por parte de banco de investimento. Com base em notícias de fontes institucionais e de imprensa financeira, o quadro é consistente e não pontual.
A Dexco teve queda de 64% no lucro líquido na passagem de 2024 para 2025, ficando em R$ 63 milhões. Com R$ 5,51 bilhões em dívida líquida, o objetivo declarado pela companhia é melhorar a margem de lucro e reduzir o endividamento, que pesa sobre os resultados e gera desconfiança entre analistas e investidores. O Goldman Sachs traduziu essa leitura em ação concreta: o banco rebaixou a recomendação para as ações de compra para neutro e reduziu o preço-alvo de R$ 7,90 para R$ 6,00, o que implica um potencial de alta de apenas 5% em relação aos níveis atuais. A instituição projetou que as despesas financeiras líquidas da Dexco continuarão a ser elevadas, representando aproximadamente 50% a 60% do EBITDA em 2025 e 2026, enquanto os segmentos de Deca e cerâmicas deverão enfrentar rentabilidade fraca, com previsão de EBITDA nulo ou negativo.
A reestruturação em curso não é trivial. A Dexco, dona das marcas Deca, Portinari, Hydra, Duratex e Castelatto, está passando por uma longa reestruturação dos negócios, com redução da linha de produtos, fechamento de fábricas e venda de ativos. A empresa anunciou que espera reduzir a alavancagem de 3,35 vezes, no fechamento de 2025, para cerca de 2,7 vezes até dezembro, por meio de avanço na geração de caixa e venda de ativos operacionais e não operacionais. A meta é factível, mas o caminho exige execução precisa — e o mercado ainda não pagou prêmio por intenções. A racionalização de cerca de 30% das SKUs e a realocação de capacidade realizadas em 2025 continuam sendo absorvidas ao longo de 2026 , segundo análise do Banco Safra.
O cenário setorial oferece alívio parcial, mas insuficiente para remover a pressão de curto prazo. As vendas de materiais de construção no Brasil cresceram 1,6% em março na comparação anual — o primeiro resultado positivo após nove meses consecutivos de quedas. O dado, porém, ainda não reverte a retração acumulada de 3,3% nos últimos 12 meses, e a Abramat avalia que o resultado reflete uma recomposição parcial da atividade, sem caracterizar tendência consolidada de crescimento. O risco macro segue predominante: a escalada do conflito no Oriente Médio tende a pressionar custos de insumos relevantes, como aço e cimento, o que pode impactar a construção, e esse contexto pode contribuir para a manutenção de uma taxa de juros elevada por mais tempo, afetando o crédito e a dinâmica do setor. Para uma companhia cujas receitas têm correlação de até 90% com o índice de vendas de materiais medido pelo IBGE — especialmente no segmento de Metais e Louças —, a combinação de juros altos e demanda ainda reprimida é o principal fator de risco estrutural para os próximos trimestres.
O próximo gatilho concreto para o papel é a divulgação dos resultados do primeiro trimestre de 2026. Segundo especialistas do Safra, a Dexco implementou repasses de preços no primeiro trimestre, cujos efeitos devem ser plenamente capturados a partir do segundo trimestre. Um possível catalisador positivo adicional seria a joint venture de celulose solúvel, que pode iniciar a distribuição de dividendos em 2026 — cenário ainda não considerado na projeção-base do Goldman Sachs. Até lá, o papel carrega o ônus de um balanço 2025 fraco e de um consenso de analistas que, com preço-alvo médio próximo à faixa dos R$ 6,00, deixa margem estreita para surpresas negativas sem nova rodada de revisões.